Saber como cuidar de coridora começa por uma surpresa: “coridora” não é um peixe só. É um grupo com dezenas de espécies, e elas não pedem a mesma água. Este guia mostra como escolher a espécie certa, qual temperatura cada uma aceita, o que estraga os bigodinhos dela e como pegar o peixe sem levar uma espetada.
Resposta rápida
Para cuidar bem de coridora, escolha uma espécie que combine com a temperatura do seu aquário, mantenha um grupo de seis ou mais da mesma espécie, use areia fina e limpa e ofereça comida própria que afunde. Ela é pacífica e resistente, mas sofre com fundo sujo e com remédio usado sem ler a bula.
O básico de todo peixe de fundo (grupo, ração no fundo, sinais de fome) está em peixes de fundo para aquário. Aqui o assunto é a coridora em detalhe.
O que é a coridora
A coridora é um bagre pequeno da América do Sul. Várias espécies são brasileiras, de rios do Sul e da bacia amazônica.
Três detalhes do corpo explicam quase todos os cuidados:
- Placas no lugar de escamas comuns. O corpo é coberto por placas ósseas, como uma armadura. Por isso a família dela é chamada de “bagres encouraçados”.
- Barbilhões. São os bigodinhos em volta da boca. É com eles que ela acha comida enterrada na areia.
- Espinhos nas nadadeiras. O primeiro raio das nadadeiras do peito e das costas é duro e pontudo. É a defesa dela contra predadores.
Ela também tem um truque raro: engole ar na superfície e absorve o oxigênio pelo intestino. Voltamos a esse assunto mais adiante, porque ele assusta muito iniciante.
As coridoras que você encontra na loja
Os nomes mudam de loja para loja, mas quatro tipos aparecem com frequência. Os números abaixo vêm das fichas do Seriously Fish, site de referência sobre espécies de aquário (em inglês).
| Espécie | Tamanho adulto | Temperatura | Para quem serve |
|---|---|---|---|
| Coridora-paleatus (C. paleatus) | até 7 cm | 22 a 26 °C | aquário comunitário comum, sem calor extra |
| Coridora-aeneus e a versão albina (C. aeneus) | até 7,5 cm | 21 a 27 °C | a mais tolerante; boa primeira coridora |
| Coridora-sterbai (C. sterbai) | até 6,5 cm | 24 a 28 °C | aquário mais quente |
| Coridora-pigmeu (C. pygmaeus) | até 3 cm | 22 a 26 °C | aquário pequeno, só com peixes miúdos |
As medidas de tamanho são do focinho até o começo da cauda. Com a cauda, o peixe fica um pouco maior.
A coridora albina, rosada de olhos vermelhos, costuma ser uma aeneus criada em cativeiro (existe também a paleatus albina). Os cuidados são os mesmos da versão de cor normal.

Temperatura: nem toda coridora aguenta água quente
É um erro que passa despercebido com frequência. Muita gente compra coridora para “limpar o fundo” de um aquário montado para outro peixe, sem conferir a temperatura.
Repare na tabela. A paleatus vai até 26 °C. Ela vem do Sul do Brasil, do Uruguai e da Argentina, de águas mais frescas. A sterbai, da bacia do Guaporé, aceita até 28 °C.
Na prática:
- Aquário comunitário a 24 ou 25 °C: qualquer uma das quatro serve.
- Aquário mais quente, de 27 a 28 °C: prefira a sterbai. A paleatus sofre nessa faixa.
- Aquário sem aquecedor, em casa fria: a paleatus e a aeneus aguentam melhor um pouco de frio do que a sterbai. Abaixo de 21 °C, todas ficam fora da faixa indicada nas fichas.
Se você ainda não sabe se o seu aquário precisa de aquecedor, o guia de aquário precisa de aquecedor ajuda a decidir.
O pH que serve à maioria fica perto do neutro, entre 6 e 7,5. Mais importante que o número é ele ficar estável, como explica o artigo sobre pH do aquário.
Grupo da mesma espécie, não uma de cada
Coridora vive em grupo. A regra de seis ou mais você já viu no artigo de peixes de fundo. Falta um detalhe que pouca gente conta: o grupo precisa ser da mesma espécie.
Seis coridoras de seis tipos diferentes não formam um grupo de verdade: cada uma fica meio perdida no aquário. As fichas do Seriously Fish recomendam manter a coridora em grupo, e a da sterbai pede pelo menos seis.
Com a pigmeu, o número sobe. A ficha dela recomenda pelo menos seis e, de preferência, dez ou mais. Ela é tão pequena que precisa do grupo para se sentir protegida.
Quanto ao espaço, a ficha da sterbai e a da pigmeu sugerem um aquário de cerca de 40 litros como ponto de partida para um grupo pequeno. Com outros peixes junto, a conta muda, e o cálculo está em quantos peixes cabem no aquário.
A coridora-pigmeu é diferente de todas
A pigmeu merece uma seção só dela, porque quebra várias regras das outras.
Ela nada no meio da água. A maioria das coridoras vive colada no fundo. A pigmeu forma cardume e passa boa parte do tempo nadando à meia-altura, quase como um tetra.
Ela vira comida de peixe maior. Com 3 cm, cabe na boca de acará-bandeira, gurami e bagres maiores. A ficha recomenda mantê-la sozinha ou com outros peixes miúdos.
Ela perde a disputa pela comida. Ração grande não serve. Ela precisa de comida em grãos bem pequenos ou triturada, e de alimento vivo ou congelado miúdo.
É a coridora certa para um aquário pequeno e plantado. É a errada para um aquário com peixes médios.

Fundo limpo: o que gasta o barbilhão de verdade
O artigo de peixes de fundo explica que cascalho com quina viva desgasta os bigodinhos. Existe uma segunda causa, tão comum quanto essa: fundo sujo.
A ficha da sterbai é direta: a espécie é sensível a substrato sujo, e condições ruins podem causar perda dos barbilhões. A coridora passa o dia inteiro com a boca encostada no fundo. Se ali tem comida apodrecendo, os bigodinhos ficam em contato com isso o tempo todo.
O que fazer:
1. Prefira areia fina. A sujeira fica por cima, onde o sifão alcança.
2. Sifone o fundo a cada troca de água, passando o tubo de leve sobre a areia.
3. Não deixe ração sobrar. O que ficar no fundo depois de algumas horas, retire.
4. Evite filtro de fundo (aquele que fica embaixo do cascalho). A ficha da sterbai desaconselha esse tipo de filtro para coridora.
Os tipos de fundo, com prós e contras de cada um, estão em substrato de aquário.

O cardápio da coridora
Na natureza, a coridora não vive de alga. A ficha da paleatus cita o que foi encontrado no estômago de peixes selvagens: vermes, pequenos crustáceos, restos de plantas e outros bichinhos que vivem no fundo.
Ou seja, ela é onívora, com gosto por comida de origem animal. Pastilha só de alga não basta.
Um cardápio que funciona:
- Base: ração que afunde, em grânulo ou pastilha, própria para peixe de fundo.
- Uma ou duas vezes por semana: alimento congelado ou vivo, como larva vermelha de mosquito, artêmia ou dáfnia. As fichas do Seriously Fish recomendam esse tipo de complemento.
- Para a pigmeu: tudo em tamanho bem pequeno.
Horário, frequência e o sinal de fome (barriga afundada) já estão no artigo de peixes de fundo. O artigo sobre o que peixe come além de ração mostra como oferecer congelado sem sujar a água.

Comportamentos que assustam, mas são normais
Coridora tem alguns hábitos que parecem doença e não são.
Subir correndo até a superfície. Ela engole ar e volta para o fundo. É a respiração pelo intestino, e o Seriously Fish descreve isso como parte do comportamento normal da espécie. Se ela sobe o tempo todo, junto com respiração acelerada, teste a água.
Ficar parada no fundo, apoiada nas nadadeiras. Coridora descansa assim, muitas vezes em grupo. Se ela reage quando você se aproxima e come normalmente, está tudo bem.
Esconder-se nos primeiros dias. Peixe novo em aquário novo se esconde. Com um grupo grande, isso passa mais rápido.
Ficar mais ativa com pouca luz. As fichas da sterbai e da pigmeu indicam iluminação mais fraca. Plantas, troncos e algum canto sombreado ajudam a coridora a circular com calma.

Se o comportamento mudou de repente, sem motivo, o guia de sinais de peixe doente ajuda a separar o normal do preocupante.
Com quem a coridora combina
A coridora é muito pacífica. Ela não ataca ninguém, então o problema é sempre o contrário: quem pode atacá-la.
Combina bem com: tetras pequenos, rasboras, platys, guppies, ciclídeos anões como o apistograma, otocinclos e o cascudo ancistrus.
Não combina com:
- Peixes grandes ou agressivos, como acarás grandes e oscar. A ficha da sterbai recomenda evitar.
- Kinguio. Ele é peixe de água fria, que vive melhor entre 18 e 22 °C, abaixo da faixa das coridoras da tabela. Também cresce muito e suja a água rápido.
- Acará-bandeira e gurami com a pigmeu. Com as coridoras maiores, o bandeira costuma conviver bem.
Na hora de dar comida, observe se os outros peixes descem e levam tudo. Se levam, ofereça a ração da coridora depois que a luz apagar.
Os espinhos: como pegar sem machucar ninguém
Os espinhos das nadadeiras, citados lá no começo, complicam qualquer mudança de aquário.
Na rede, eles enroscam. A coridora se debate, o espinho prende na malha e ela fica presa. Puxar à força pode quebrar a nadadeira.
Na mão, eles espetam. A ficha da aeneus avisa que os espinhos conseguem furar a pele humana. A da sterbai fala em picada dolorida.
Além do furo, existe um veneno fraco. Um estudo de 2009 sobre bagres venenosos, publicado na revista BMC Evolutionary Biology, encontrou glândulas de veneno junto aos espinhos em espécies da família da coridora. Na coridora, o efeito costuma ser leve: a ficha da aeneus fala em secreção “levemente tóxica”. O mesmo estudo lembra que, em qualquer bagre, a ferida pode infeccionar.
O jeito seguro de pegar:
1. Use um pote ou copo transparente no lugar da rede.
2. Encoste o pote no fundo e conduza a coridora para dentro com a mão aberta ou com a própria rede.
3. Levante o pote com água dentro. Ela nunca sai da água.
4. Se precisar usar rede, prefira malha fina e solte o peixe com calma, sem puxar.
Se você levar uma espetada, lave bem com água e sabão. Se a dor durar muito ou o lugar ficar inchado e vermelho, procure um médico.

Como escolher coridora saudável na loja
Uma boa compra evita muita dor de cabeça. Na loja, olhe com calma o aquário de exposição.
Sinais de peixe bom:
- barbilhões inteiros, sem bigode curto ou sumido;
- barriga arredondada, vista de lado;
- grupo ativo, fuçando o fundo;
- nadadeiras abertas, sem pedaços faltando.
Sinais para não levar:
- manchas vermelhas na barriga ou na boca;
- peixes parados, sem reação, ou boiando;
- peixe morto no mesmo aquário;
- pontos brancos no corpo, que podem ser íctio.
Peça o grupo todo da mesma espécie e do mesmo aquário. Em casa, a coridora sente diferença de água como qualquer peixe: siga o passo a passo de como aclimatar peixe, sem pressa.
Coridora e remédio: leia a bula antes
Por ter placas no lugar de escamas comuns, a coridora costuma ser tratada no aquarismo como peixe sensível a remédio, junto com outros bagres. Por isso, a regra é simples: nada de produto sem ler a embalagem.
Antes de tratar o aquário:
- leia a bula inteira e procure aviso sobre coridora, bagre ou peixe sem escama;
- não misture produtos, nem de marcas diferentes;
- não use sal por conta própria num aquário com coridora;
- na dúvida, pergunte a um veterinário de animais aquáticos ou a uma loja especializada.
Se o problema for pontos brancos, o artigo de pontos brancos no peixe explica como identificar antes de qualquer tratamento.
E se aparecerem ovos no vidro?
Coridora bem cuidada pode desovar sem nenhuma ajuda. A fêmea, mais larga e arredondada, gruda os ovos no vidro.
Os ovos nascem em três a quatro dias, segundo a ficha da aeneus, mas no aquário comunitário quase sempre viram comida. O que fazer com eles está em ovos de peixe no aquário.
Erros comuns
- Comprar coridora sem olhar a temperatura do aquário. A paleatus sofre acima de 26 °C.
- Montar o grupo com uma de cada espécie. O grupo precisa ser da mesma espécie.
- Pôr a pigmeu com peixes médios. Ela vira comida ou passa fome.
- Deixar o fundo sujo. Sujeira acumulada gasta o barbilhão tanto quanto cascalho de quina viva.
- Alimentar só com pastilha de alga. Coridora gosta de comida de origem animal.
- Pegar com rede de malha grossa. O espinho enrosca.
- Tratar o aquário sem ler a bula. Coridora pede cuidado com tratamento.
Principais pontos
- “Coridora” é um grupo de espécies, e cada uma tem sua faixa de temperatura.
- A paleatus aceita até 26 °C; a sterbai, até 28 °C.
- O grupo tem de ser de seis ou mais da mesma espécie; com a pigmeu, dez ou mais.
- Fundo sujo e cascalho de quina viva são as duas causas de barbilhão gasto.
- Ela come vermes e pequenos crustáceos na natureza: inclua congelado ou vivo no cardápio.
- Subir à superfície para engolir ar é normal; subir o tempo todo pede teste de água.
- Os espinhos enroscam na rede e espetam a mão: use um pote para pegar.
Leia também
- Peixes de Fundo para Aquário: Quais São e Para Que Servem — o básico de grupo, ração e sinais de fome
- Substrato de Aquário: Areia, Cascalho ou Substrato Fértil — o fundo que não machuca o barbilhão
- Aquário Precisa de Aquecedor? Quando Usar — para acertar a temperatura da espécie escolhida
- Como Aclimatar Peixe Novo no Aquário (e Por Que Fazer Quarentena) — a chegada das coridoras em casa
- Ovos de Peixe no Aquário: Como Identificar e O Que Fazer — quando a coridora gruda ovos no vidro
- Peixes Pequenos para Aquário: Melhores Espécies para Começar — companheiros que combinam com a coridora
Fontes e leitura complementar
- Seriously Fish — ficha da coridora-paleatus, hoje classificada como Hoplisoma paleatum (em inglês)
- Seriously Fish — ficha da coridora-sterbai, hoje classificada como Hoplisoma sterbai (em inglês)
- Seriously Fish — ficha da coridora-aeneus, hoje classificada como Osteogaster aenea (em inglês)
- Seriously Fish — ficha da coridora-pigmeu, hoje classificada como Gastrodermus pygmaeus (em inglês)
- Seriously Fish — ficha do Betta splendens (em inglês)
- Wright (2009), BMC Evolutionary Biology — Diversidade e origens dos bagres venenosos, na PubMed Central (em inglês)
Perguntas frequentes
Quantas coridoras devo colocar no aquário?
No mínimo seis, todas da mesma espécie. Com a coridora-pigmeu, o ideal é dez ou mais, porque ela só se sente segura num cardume maior.
Qual a temperatura ideal para coridora?
Depende da espécie. A paleatus vive bem de 22 a 26 °C, a aeneus de 21 a 27 °C e a sterbai de 24 a 28 °C. Para um aquário comunitário a 24 ou 25 °C, qualquer uma serve.
Coridora precisa de aquecedor?
Na maior parte do Brasil, sim, no inverno. Abaixo de 21 °C, todas ficam fora da faixa indicada para elas. A paleatus e a aeneus toleram um pouco melhor a água mais fresca do que a sterbai.
Coridora pode ficar com betta?
Pode dar certo, mas não é garantido. O Seriously Fish não recomenda o betta para aquário comunitário, porque muitos machos brigam com qualquer vizinho. Se tentar, use 40 litros ou mais, com plantas, e uma coridora que aceite a água quente do betta, como a sterbai. Observe os primeiros dias e separe os peixes se o betta perseguir as coridoras.
Por que a coridora sobe até a superfície?
Para engolir ar. Ela absorve oxigênio pelo intestino, e isso é normal. Só preocupa se ela sobe o tempo todo e respira acelerada, sinal de água ruim ou pouco oxigênio.
Coridora espeta a mão?
Pode espetar. Os espinhos das nadadeiras furam a pele e têm um veneno fraco. A espetada dói, mas costuma passar; se o local inchar, ficar vermelho ou a dor durar muito, procure um médico. Para pegar o peixe, use um pote transparente.
Coridora come alga?
Não é peixe de comer alga. Ela prefere ração que afunda, vermes e pequenos crustáceos. Para alga no vidro, os peixes certos são o otocinclo e o cascudo ancistrus.
Qual a diferença entre coridora macho e fêmea?
A fêmea fica maior e bem mais larga, principalmente quando está cheia de ovos. Vista de cima, fica mais fácil notar a diferença.
Próximo passo
Antes de comprar, confira a temperatura do seu aquário e escolha a espécie pela tabela deste guia. Depois, prepare o fundo: o passo a passo está em substrato de aquário.
Equipe editorial do Mundo Aquário. Escrevemos guias práticos de aquarismo de água doce para quem está começando. Cada artigo é revisado antes de publicar: conferimos litragem, temperatura, espécies e equipamento contra fontes de aquarismo e, quando o assunto pede, contra a norma do órgão responsável.







